24 de janeiro de 2014

Destinatário fora de área.

27 de Setembro, 2008.




"Hoje parei para pensar a que ponto cheguei. Estou aqui, escrevendo sobre os meus
sentimentos por alguém que nem ao menos vai ter a oportunidade de ler.
Faz um ano desde a primeira vez em que te vi. Desde a primeira vez em que os nossos
olhos se encontraram. E eles sabiam que um dia teríamos algo especial. Nós não, mas
eles sabiam.
Nosso contato foi normal como qualquer outro. Com o tempo, a nossa confiança aumentou
e muitos diziam que tinhamos uma amizade admirável. E realmente tínhamos.
Dentro de mim, as coisas aconteceram muito rápido. De uma hora para outra, comecei a
tentar esconder o que você me fazia sentir. Cada toque, cada palavra, cada passo seu tinha
o poder de me fazer tremer. Mas, não conseguia aceitar. Seria tão difícil.
Eu estava me culpando tanto que não percebi os teus sinais. Até que em uma sexta-feira
à noite, quando sempre alugávamos um filme para assistir, senti a tua mão na minha.
Pronto, perdi a respiração. Estaria você brincando com os meus sentimentos?
Eu realmente achava que você havia percebido e estava fazendo aquilo só para ver como
seria a minha reação.
Você chegou mais perto e deitou a cabeça no meu ombro. Pude sentir aquele perfume que
tanto amava, um cheiro de morango tentador.
Eu estava intacta. Sem a mínima reação. E você deve ter percebido, porque inclinou a cabeça
e me olhou. Eu manti meus olhos fixos no filme, tinha medo do que iria me dizer.
Mas, você não disse nada. Apenas fechou os olhos e respirou fundo, como se quisesse
relaxar. E ficamos ali, daquele jeito, por vários minutos.
Acho que fez isso para me tranquilizar. Meu coração batia a mil por hora, mas eu estava
calma e feliz.
Quando eu achava que nada mais poderia acontecer, você mudou de posição para se sentar
e ficar na minha altura. Olhou para mim, deu um sorriso tímido, colocou as mãos no meu
rosto e me beijou.
Eu vou pular esta parte, porque palavras não são suficientes para descrever o que senti
naquele momento. Muito menos, quando segurou em minhas mãos e disse "eu te amo" com os
olhos marejados.
A partir daquele momento eu tinha certeza de que seria a pessoa mais feliz do mundo ao
teu lado. Nós apenas não sabíamos que seria tão difícil.
O que mais me machucava eram os olhares das pessoas para nós. Como alguém poderia condenar
um amor tão puro? Até hoje, não entendo porquê nos achavam tão diferentes.
Guardo comigo os melhores momentos da minha vida. Sinto orgulho deles. Sinto orgulho de
você. Da sua força. Da força que te fez aguentar esses últimos meses ao meu lado. Da força
que ficou para me consolar quando você já não estava mais aqui.
Você se foi e me deixou. Não porque quis assim, mas porque precisou. Deixou também uma dor
tremenda, mas ela não é maior que o carinho que eu sinto quando me lembro do teu sorriso.
Espero conseguir enfrentar esse mundo sem o teu apoio. Eu sei que consigo. Eu te devo isso.
Eu te devo tudo.
Tenho saudade da sua mão no meu rosto, do teu cheiro na minha roupa, do dom que só você
recebeu de me fazer feliz.
Lembre-se de mim, esteja aonde estiver. Porque a minha cabeça nunca vai pensar em nada mais
intenso que você e as minhas flores vão sempre decorar o lugar em que te deixei.

Minha linda, a nossa história começou com um "eu te amo" e eu não vou dizer outro para
acabar, mas para continuar.

Eu te amo, para sempre!"



Sophia.

22 de janeiro de 2014

Samantha não é "uma mulher dessas..." e gosta de morder.

Não sei vocês, mas sempre fico um pouco deprimida quando alguém diz "uma mulher dessa, é comprometida, com certeza". Eu não sou comprometida e estou longe de estar perto de ter qualquer coisa que se possa chamar de relacionamento, então eu não sou "uma mulher dessa"? 
O que é "uma mulher dessa"? É ser bonita, sensual, inteligente, simpática, educada, ter um corpo bonito, ou a junção de tudo isso? Acho que não sou boa o bastante pra ser digna de alguém legal do meu lado. Porque eu continuo sozinha na estrada.
As vezes me pergunto o porquê de estar sempre sozinha. Não vou dizer que nunca tive nenhum tipo de relacionamento, mas tirando os rolos passageiros, meus relacionamentos foram dos mais estranhos aos mais malucos possíveis e não consigo considerar nenhum deles como um namoro de verdade. 
Qual o problema comigo? Cuido bem de mim, ou pelo menos tento cuidar enquanto brigo diariamente com o espelho. Procuro ser simpática, educada e legal com as pessoas. Modéstia à parte sou até que inteligente, leio muito, tenho bom gosto pra música. Mas, o que eu mais preciso, me falta... confiança.
Taí, escrever sobre as próprias confusões fazem você mesma descobrir suas respostas. O difícil é saber a justificativa da resposta descoberta. Falta de confiança, insegurança, baixa auto-estima, medo... de quê? Por quê? 

Cansei de viver amores platônicos, de sonhar com histórias encantadas, de desejar aquilo que não é meu, de me apaixonar por quem nunca olharia pra mim. Aí está o ponto, eu sempre acho que ninguém nunca vai me notar. Sou idealista sim e acho que esse é meu mal. Vejo tudo com os olhos de uma adolescente doida e inconseqüente, que ainda não se tocou que está com 20 anos nas costas e passou da hora de virar mulher e encarar a realidade como ela é. Me pego em momentos de tamanha intensidade dramática que as vezes acho que sou uma personagem de mim mesma, diariamente treinando meu papel. E minhas várias personas me tornam um tanto quanto bipolar. Mas me sinto ao mesmo tempo em pânico, confusa, perdida e afobada. Quero tudo e não tenho nada. Ou quando quero uma coisa só, ela sempre é algo que eu provavelmente não estou ao alcance de ter. É como se eu vivesse em constante desafio. Talvez eu até goste deles, goste de não poder, de que exista uma proibição. Será que é esse meu problema? Será que tudo que vier fácil ou que mesmo depois de muita luta, eu não vou querer mais? O ser humano é assim, está sempre querendo e nunca totalmente satisfeito. E querendo o quê? Pessoas? Realizar sonhos? Coisas materiais? Que seja. 

Mas minha maior obsessão são pessoas. Gosto delas, e às vezes as odeio. Outras ficam no meio termo, mas não gosto de meio-termo, não tem gosto nem personalidade. E gosto é uma coisa importante, gosto de gostar do gosto das pessoas. Entenda como quiser. E só gosto do gosto quando gosto do cheiro. Esse sim, é meu sentido preferido. Ele pode te levar a qualquer lugar, é só fechar os olhos e deixar os sentidos agirem por si só. Eles provocam lembranças, vontades, sorrisos, choros e desejo. Gosto quando o cheiro me provoca desejo, me dá vontade de morder. E gosto de morder. Cada pessoa, cada coisa, cada lugar tem um cheiro diferente. Uma comida pode ser feita duas vezes no mesmo dia, mas alguma coisa no cheiro será diferente. Livros tem cheiros, cada um diferente do outro. Livros, minha segunda obsessão, depois das pessoas, mas talvez eu até trate eles com muito mais carinho e devoção.

  

10 de dezembro de 2013

Sabe aquele papo de que a vida é uma roda gigante?

O amor é uma coisa engraçada, não acha? É uma certeza cheia de incerteza, uma entrega cheia de insegurança, é quando a gente se permite ser cego e ignorante. Não sei, só sei que naquela época tudo para mim parecia certo. O momento, o sentimento, os planos, e claro, ele. 
Tudo começou do jeito que eu mais gosto, no maior estilo clichê da vida que a gente não consegue se livrar. Eu estava subindo a rua com a minha irmã para visitar uma amiga, que após um término de namoro, estava ameaçando se matar e o vi descendo a mesma rua dirigindo uma moto. Sim, que ironia eu encontrar o amor quando uma das minhas melhores amigas tinha acabado de perder o dela. Mas, é a vida não é? Cheia de inícios e fins. Ela não para, é como uma roda gigante sem aquele instrutor que decide quando ela deve parar ou não. É uma roda viva, que insiste em altos e baixos. Afinal, ela precisa deles, senão não seria uma roda gigante. Senão, não seria a vida.

Tá, vamos direto ao ponto. Eu nunca tinha me relacionado com alguém mais velho, nunca tinha nem cogitado a possibilidade de namorar um cara que tivesse cinco anos a mais do que eu, que dirá dez anos! A gente vive repetindo aquela frase de que idade não é documento, o que importa é o sentimento e a felicidade, e ela é real. É real quando estamos apaixonados, como eu estava. Só que não é tão real quando se tem apenas dezesseis anos, como eu tinha. Mas eu não estava preocupada com isso, e ele também parecia não estar. 
Como eu disse antes, sou apaixonada por clichês. E em relação a isso tudo, eu tenho mais um para me apegar: o primeiro amor a gente nunca esquece. E olha, não esquece mesmo. Já estou com 22 anos e por mais relacionamentos que eu vá a ter, nenhum nunca vai ter aquela sensação sufocante, excitante do primeiro. Porque a gente aprende né? A gente começa a entender como o jogo funciona, e no fim tudo perde a graça. Fica mecânico, e cada vez mais difícil encontrar algo que nos faça sentir novo e inocente, me atrevo a dizer até infantil.

É claro que eu tive meu coração partido por aquele homem de vinte e cinco anos que só se encantou por mim, porque eu era mais nova, e modéstia à parte, também não era de se jogar fora. Mas, eu acredito que ele tenha gostado de mim, um pouco, verdadeiramente. Não da maneira como eu me apaixonei, mas ele me correspondia. E eu me contentava com qualquer migalha que ele jogasse. Um meio sorriso já me fazia ganhar o dia. Como adolescentes são idiotas. 
Bom, para resumo de conversa, nós estávamos indo muito bem com o nosso pseudo relacionamento até ele conhecer a Érica. Sabe aquela amiga do coração partido que eu citei no início? Então, ela mesma. Acontece que eu tive a infelicidade de leva-la à uma festa de um dos amigos do Miguel (ah, aliás, esse era o nome dele, esqueci de contar). E como toda pessoa de coração partido, quando se encontra em meio a tanta bebida free, passa dos limites. Eu não tenho paciência para cuidar de gente bêbada, para ser sincera, e aquela cena toda da Érica estava estragando a minha noite com o Miguel. Eu não queria que ele pensasse que eu era imatura e inconsequente como ela. Eu era ainda pior, mas isso não vem ao caso. 

No fim, quem se ofereceu para cuidar da Érica, foi o próprio Miguel. o que me deixou bastante surpresa e confesso que mesmo tendo um certo ciúme da atenção que ele estava dando a ela, fiquei aliviada por ele estar lidando com a situação como se nós fizéssemos parte do grupo dele. Sinal de que não tinha estragado tudo. Ele se ofereceu para levar a Érica para casa e me disse que depois voltava para me encontrar. E eu, inocentemente, achei aquilo heróico e incrível e concordei em espera-lo. 
Bom, eu não quero tomar muito o seu tempo, então já vou logo para o final da história. Sabe quando eu disse que a vida é uma roda gigante cheia de altos e baixos, de inícios e fins? Pois é. O meu fim foi exatamente ali, no momento em que eu ignorantemente achei que tinha o melhor namorado do mundo. Duas horas depois de ter saído para levar a minha amiga embora, ele me mandou uma mensagem dizendo que aconteceu um imprevisto e não poderia voltar e me levar para casa, mas que tinha pedido ao Bruno (um amigo, pervertido e nojento dele) para me dar uma carona. Uma mensagem? O bruno? Duas horas? Sem nem um mísero pedido de desculpas? Exatamente. E o que eu fiz? Achei que estava tudo bem e aceitei a carona do Bruno, que me rendeu mais de dez minutos tentando sair do carro na porta de casa porque ele insistia em tentar me convencer de que eu não era certa para o Miguel, mas sim, para ele. Credo. Hoje eu teria resolvido aquele imprevisto de forma mais prática. Mas, tudo bem.

Por fim, o Miguel sumiu por uns bons cinco dias e quando tive noticias dele novamente, foi por mensagem de texto, onde ele me contava que tinha se apaixonado, e me pedia perdão por ter demorado a me contar. Disse que estava envergonhado e não queria me decepcionar mas que sabia que eu o entenderia, como sempre entendi. E que eu era madura o suficiente para deixar ele ser feliz.

Ao lado da Érica, aquela vaca. Se eu soubesse antes tinha deixado ela cortar os pulsos naquele primeiro coração partido. 

7 de dezembro de 2012

Eu juro solenemente não fazer nada de bom.

Há algum tempo, escrevi para o site Somos Das Masmorras (que hoje só existe no Tumblr, Twitter e Facebook), uma coluna sobre a minha personagem preferida em Harry Potter. E hoje, encontrei esse texto em meio aos muitos rascunhos que guardei aqui. Reli e gosto tanto dele que vou deixá-lo aqui para vocês, leitores lindos fãs de HP como eu, lerem e talvez, concordarem comigo. 
Para quem me acompanha, sabe o quanto sou fã (sem me envergonhar, muito pelo contrário) da saga. E para os que dividem comigo esse mesmo amor, aqui está.

BELATRIZ, LEAL ATÉ O FIM.



No decorrer da saga, alguns personagens aparecem na mesma rapidez em que desaparecem (Quirrell? Crouch Jr.? Karkaroff?), outros sempre estiveram ali, mas nós nem ao menos nos demos ao trabalho de prestar atenção neles (Anna Abbot? Susan Bones? Alicia Spinnet? Clearwater?), e outros apareceram em meio ao caos e sugaram toda a atenção (pelo menos, a minha), como é o caso de Belatriz Lestrange. Bella sempre foi a minha personagem preferida, e até então eu não conseguia dar uma explicação do motivo que me levou a amá-la tão rapidamente. A princípio ela era só mais uma personagem coadjuvante, comensal da morte, fiel à Voldemort até o último fio de cabelo e extremamente má (para alguns, ela continua sendo apenas isso). Mas alguma coisa no jeito com que J.K Rowling a descrevia me intrigava, ela não era como Narcisa, como Lúcio ou como qualquer outro comensal. Ela tinha um jeito único, uma personalidade interessante, algo que a destacava. Passei horas e horas imaginando quem a iria interpretar nas telonas e pensando se a atriz conseguiria ver a mesma coisa que eu, essa loucura psicótica e ao mesmo tempo um humor agridoce e infantil. E eis que me aparece Helena Bonham Carter. Fim de papo. Quando soube que a minha atriz preferida traria vida à Bella nos cinemas, depositei toda a minha confiança nela e NÃO FOI EM VÃO. Ali estava a Bella que eu sempre imaginei, o engraçado perdido no meio da maldade, a sedução escondida nos olhos negros por trás daquela máscara insana e cheia de malícia. Helena trouxe o que Rowling deu à Bella desde o começo, alias, o que Rowling dá à seus personagens muito perfeitamente: a humanidade.

Um dia Bella foi uma bruxinha como todas as outras, atrás de sua primeira varinha, com medo do primeiro dia de aula, se perguntando se seria bem aceita e pensando em como demonstraria a todos o seu sangue puro e a sua família nobre para que fosse aceita, escondendo todas as “vergonhas” de sua linhagem. Ah, vamos esquecer o estereótipo da Sonserina, e prestar atenção no fato de que ela tinha fraquezas como todos os outros, e provavelmente deve ter usado da arrogância e egocentrismo pra esconder isso. Ela teve seus medos, excitações, desesperos e inseguranças. Como qualquer criança aos 11 anos de idade prestes a ingressar em uma luta para o futuro, e que não era uma luta contra os outros, mas com ela mesma. Atrás da própria identidade. Quem já pensou em como foi a infância e a adolescência de Bella? Como foi a vida dela até ser presa em Azkaban e enlouquecer completamente? Como ela era antes dos dementadores? Eu sempre quis saber como J.K Rowling a imaginou.

Pode soar esquisito da minha parte, mas era lindo ver a devoção, a lealdade, me atrevo a dizer até a paixão que ela exalava quando se tratava do Lorde das Trevas. A vontade de ser notada, de ser escolhida, de poder estar junto dele a cada segundo e a cada plano que ele decidisse colocar em prática. E ela esteve, sempre. E ele reconheceu. Não da maneira que talvez ela esperasse, mas dentro do egoísmo dele. Se ele entendesse o amor... se ela entendesse que podia sentir amor. Era fascinante. 
Romântica, eu? Não, só acho que toda panela tem sua tampa e até os maus encontram seu par. Ou você vai me dizer que não achou épica e emocionante a cena do livro em que ambos estão lutando juntos? Cada um contra três bruxos. Era como uma dança do acasalamento, ambos demonstrando o poder que tinham, a capacidade de agilidade, de inteligência, de esperteza. Imagino olhares dela para ele a cada feitiço produzido. E a frustração e ódio de Tom quando Molly vence por fim. Tirando aquilo que era DELE, talvez a única coisa que sempre foi dele. Uma morte linda, pelos motivos errados, porém linda. O filme não valorizou a cena em questão, mas não importa. 

Talvez, só eu tenha fantasiado em cima da psique de cada um nesse momento e imaginado cada detalhe e pensamento de ambos antes que a loucura infantil e obsessiva de Belatriz Black Lestrange fosse, finalmente, interrompida. E não que eu quisesse que ela vivesse, talvez no fundo eu quisesse que ela mudasse, para que pudesse continuar viva. Mas dentro da lógica humana, eu sabia que isso não era possível. Então vejo a vida de Bella sendo fechada com chave de ouro. Morreu pelos motivos que viveu, matar Belatriz é mostrar ao mundo que só é digno de viver, aquele que busca o bem. Afinal, a vida não nos é dada à toa. Bella pode ser um exemplo do que eu não devo ser, mas ela me ensinou coisas como entrega, intensidade, determinação e lealdade. Exatamente, lealdade! A gente tem que saber tirar as coisas boas de dentro das ruins, é muito fácil ver lealdade quando se trata de Harry e Dumbledore, por exemplo. Mas, na vida, nem tudo é completamente bom, e muito menos, completamente mau. 


E se nesse momento Bella estivesse me lendo, me mandaria parar com esse clichê barato de lealdade. Alegando que essa melação de quinta a la Harry e Sirius não poderia ser relacionada à ela. Mas, no fundo, estaria concordando comigo.





ATÉ A PRÓXIMA!

6 de dezembro de 2012

Sobre sonhos e quebra-cabeças.


A vida nos leva a caminhos que nem sempre esperamos, as coisas nem sempre saem como desejamos e os sonhos... Ah, os sonhos mais parecem uma sucessão de frustrações do que de realizações. A vida, ela dá voltas, incansáveis voltas que tornam e retornam até que tenhamos aprendido a lição. Até que tenhamos entendido que a sucessão de frustrações fazem parte de um quebra-cabeça que devemos completar no decorrer de nossa história. E como todo quebra-cabeça, desses bem grandes de quase dez mil pecinhas, ele requer paciência, determinação, prática, persistência, concentração e foco. Às vezes precisamos desmontar tudo e começar do zero, às vezes algumas peças se perdem, se desgastam, são pisadas, amassadas, remendadas. Às vezes a vontade de colocar tudo de volta na caixa e chutá-la para debaixo da cama é maior do que a vontade de vê-lo completo. Há dias em que olhamos e nos desesperamos ao ver apenas um esboço da imagem e tentamos, sem sucesso, pular etapas, colocar os pés pelas mãos e acabamos encaixando uma peça errada. Ela entra ali, mas ela não pertence àquele lugar. E pode levar horas, dias, semanas, meses, anos para percebermos o erro e corrigi-lo, alguns nunca chegam a perceber. E nada é mais desagradável do que se dar conta de que algo que sempre esteve ali, não deveria estar ali. E que tudo seria mais fácil e faria mais sentido se tivéssemos prestado atenção. Alguns de nós estão mais adiantados, são mais sagazes, sensíveis, já entenderam como a brincadeira funciona. Outros, a maioria, ainda está literalmente quebrando a cabeça como se tomados por um transtorno de déficit de atenção coletivo. Alguns finalizam antes, outros podem demorar um pouco mais e outros podem demorar um pouco mais do que um pouco mais. Mas todos, todos completam a imagem e no fim se pegam admirando feito bobos a beleza da missão cumprida e dão risadas constrangidas de si mesmos conseguindo ver o quão mais fácil poderia ter sido chegar ao fim. Mas, ao mesmos tempo se dando conta do quão sem graça teria sido ir tão rápido e tão facilmente até ali. Por fim, alguns desmontam a imagem, jogam de volta para dentro da caixa, chutam para debaixo da cama e perdem a vontade de montar. Outros, colocam cuidadosamente em uma moldura e penduram na parede do corredor para poder olhar todos os dias e se orgulhar. E ainda há outros, que depois de pendurar a primeira vitória, respiram fundo, e com cuidado, pegam uma caixa nova. E como se fosse a primeira vez, inseguros, receosos, ansiosos, iniciam uma nova imagem, mas essa já trazendo um leve sorrisinho de lado, afinal, à essa altura já aprenderam que tudo o que precisam está dentro deles, e é só uma questão de saber usar e, às vezes, abusar.

Gosto de ter certeza de que cada pessoa na minha vida esteja cuidando direitinho do próprio quebra-cabeça. Porque cada um é uma peça importante e crucial na formação da minha imagem. Sem eles, meu projeto ficaria incompleto. São parte de mim, do meu quebra-cabeça, da minha vida... dos meus sonhos.

7 de março de 2008

Saudade.

Em meio ao caos da mente urbana. A tensão dos nervos de mudança. A pressa dos passos soltos, e dos determinados. De súbito. Paro. E me deparo com meu armário antigo. Há muito não o usava. Bom, para ser honesta, evitava usa-lo.
Nem sempre é aconselhável tentar esconder o passado, pois em um momento inesperado somos obrigados a lidar com ele. Assim, como eu. De súbito. Na marra.
E olha que não é um passado tão velho, por assim dizer. São dezessete anos. Mas também um mês. Enfim, alguns dias.
Em meu mais recente ataque de nostalgia, cobri o móvel antigo com um pano branco. O que não rendeu muitos resultados, uma vez que a silhueta do objeto semi-despedaçado tentava dialogar comigo. Dia e noite.
Essa presença constante incomodava-me a cada segundo de respiração, às vezes vários, quando me obrigava a prendê-la.
De repente flagro-me em pé, diante do pano branco que cuidadosamente retirei do móvel. Não havia sequer vestígios de poeira. Recente, tão recente. Tão doloroso.
Quando me dei conta, passaram-se quinze minutos, até que eu tomasse coragem de tocá-lo.
Deixe-me descreve-lo: era de estatura média, não muito larga. De cor marrom escuro, com algumas lascas, defeitos. Nele havia duas gavetas. A primeira era maior, porém quase vazia, a gaveta concreta. Já a segunda, era menor, mas quase não fechava de tão cheia, a gaveta abstrata.
Eu sei. Tenho plena consciência de que a minha subjetividade está atrapalhando na compreensão desse objeto. Mas, eu não parei por aqui.
Abri a gaveta maior, respirei fundo. Pude ver um apartamento. Uma escola. Pessoas, amigos. Um templo. Revistas, instrumentos. Tudo o que um dia foi de extremo valor para mim, e continua sendo.
Fechei a gaveta com cuidado. Estava com um sorriso discreto no rosto. Boas lembranças.
Conti-me antes de abrir a segunda gaveta. Se a primeira me causara acelerados batimentos, o que havia de ter na pequena?
Apenas toca-la já me fazia bem. Uma alegria indescritível invadiu meu corpo, e quando terminei de puxá-la, fui envolvida por um turbilhão de sentimentos. Felicidade, amores, amizades. Tudo o que passei até ontem, praticamente fez parte de mim de novo.
Não fazia questão de fechá-la tão cedo. E me permiti usufruir daquele momento raro por alguns, bons, minutos. Quem sabe horas.
Como sempre a razão trouxe-me de volta a realidade e com muita relutância, coloquei a gaveta no lugar.
Senti-me bem. E boba. Sim, ridícula por ter chegado ao ponto de esconder este armário, que me fez feliz durante toda a minha vida. Que me completou. Transformou-me.
Agora, cá pra nós, o pobre estava em estado lastimável, pela minha falta de cuidado.
Engoli seco.
E chorei.
Sim. Derramei minhas lágrimas, sem querer, em cima dele. Gotas de saudade.
Sem que eu percebesse. Aos poucos. Elas, as lágrimas, o restauraram.
Um brilho incomum ofuscava daquele velho móvel. Brilho tal, que podia contemplar a cada vez que entrava no quarto. Podia senti-lo a todo o momento.
E foi ele, que me ensinou que o que é especial não se pode omitir. Pois de tão essenciais e importantes, cedo ou tarde eles reaparecem, mais fortes do que nunca.
E te pegam assim. De súbito. Na marra.
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Sem observações hoje! ;D